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O Colégio e Suas Características

Algumas Idéias Iniciais

O que se deve entender por Educação Bilíngüe

O Papel da família no aprendizado bilíngüe

Algumas anotações referentes ao ambiente bilíngüe

Finalizando

Bibliografia

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Uma Experiência de Educação Bilíngüe na Cidade de São Paulo e as Características do Processo de Socialização das Crianças num "Mundo" Bi-Cultutral
Flávio Boleiz Júnior
Universidade de São Paulo - Aluno de Pedagogia


 

“Aprender uma língua é também descobrir os valores culturais da sociedade que a fala. A aprendizagem pode converter-se em um processo de aproximação a outras formas de vida e pensamento, ao mesmo tempo que de reconhecimento e valoração das suas próprias formas.”

(Kramsch)

 

Diante da mundialização cultural que nosso planeta vive hoje, conjuntamente com a globalização da economia, muito útil se faz o aprendizado de novas línguas e novas culturas, que não aquelas que se adquire por meio do processo primário de socialização, que é o que se dá em nossa educação familiar.

Frente ao crescimento cada vez maior da demanda - especialmente daquelas pessoas pertencentes às classes mais elevadas de nossa sociedade - por essa possibilidade de aquisição de uma ‘segunda Língua e uma segunda cultura’, várias escolas têm-se proposto a oferecer um ensino bilíngüe e bicultural, com objetivo de propiciar aos seus escolares a possibilidade de apreensão de idiomas, saberes e costumes atinentes a outras sociedades. Em muitas cidades do Brasil vemos escolas oferecendo cursos bilíngües e biculturais em Português-Inglês, Português-Italiano, Português-Alemão, Português-Chinês e muitas outras, inclusive Portugês-Espanhol; numa tentativa de suprir essa nova necessidade do mercado.

O Colégio Amália Domingues Soller, na cidade de São João, possui uma proposta de educação bilíngüe em Português e Espanhol que tivemos a oportunidade de observar e sobre a qual trabalharemos neste artigo.

Essa observação nos levou a refletir sobre a funcionalidade desse sistema de ensino-aprendizagem enquanto um processo secundário de socialização - aquele que se dá fora do ambiente familiar, a partir da inserção da criança no mundo escolar -, de modo que pudéssemos verificar a validade ou não dessa forma de ensino enquanto ferramenta competente no processo de formação de sujeitos bilíngües e biculturais.

Tendo procurado o Colégio em meados do primeiro semestre de 2001 com o objetivo de realizar um estágio junto ao departamento de Educação Infantil, nos deparamos com uma realidade lingüística muito particular e interessante, em que as Línguas Portuguesa e Espanhola estão vivas e presentes no cotidiano dos alunos, professores e empregados.

O corpo de empregados e professores é formado por indivíduos de Língua Portuguesa e Espanhola. Nas salas de aula, pátio, corredores e gabinetes do Colégio ouve-se conversas em Espanhol com a mesma naturalidade que em Português. Certos funcionários - mesmo de caráter administrativo - conversam com as crianças em Língua Espanhola.

Os professores especialistas de Espanhol são em sua maioria advindos de países hispânicos; e tanto estes como os demais professores especialistas desta área - os naturais do Brasil - comunicam-se somente em Língua Espanhola com os alunos todos do Colégio.

Dentre os alunos da Educação Infantil, há pelo menos cinco crianças de origem hispânica, que só falavam Espanhol quando ingressaram no Colégio e após alguns meses de escolarização só rudimentarmente falam Português. Interessante observar o “autêntico Portunhol” com que os colegas brasileiros se comunicam com eles: “- Porque você tiene dos canetas?”

Procurando fornecer aos alunos as condições necessárias à construção de uma identidade bilíngüe e bi-cultural; o Colégio parece estar conseguindo apresentar-se à sociedade como um mundo à parte dentro da cidade em que está inserido.

“O ser humano se contrapõe e se afirma como sujeito num movimento e ação teleológica sobre a realidade objetiva. Modificando a realidade que o circunda, modifica-se a si mesmo. Produz objetos e, paralelamente, altera sua própria maneira de estar na realidade objetiva e de percebê-la”. (FRIGOTTO - 1988) Buscando oferecer um ambiente bicultural para seus alunos, o Colégio criou um mundo hispano-brasileiro à parte, que modifica a realidade que circunda a criança na sociedade em que vive, no qual fica imerso o aluno durante seu horário de escolarização.

Pensando na escola como: “agente de socialização responsável pela formação de cidadãos que sejam capazes de responder aos diversos desafios que a sociedade coloca aos jovens hoje”. (MADEIRA - 1999) e usando como referência a definição de que “o processo de socialização é entendido como aquele por meio do qual o indivíduo aprende a ser um membro da sociedade, tratando-se da imposição de valores e padrões sociais à conduta individual” (BERGER - 1980); procuramos observar de que maneira o processo de socialização ocorre nessa inserção num mundo bilíngüe e bi-cultural para as crianças da Educação Infantil, sem perdermos de vista o processo que desencadeia o aprendizado dos alunos das classes mais adiantadas da escolarização no Colégio.

Uma vez que “a escola enquanto instituição possui uma dimensão macrossocial, pois está inserida numa comunidade e tece relações sociais com o seu meio envolvente possuindo, ao mesmo tempo, uma dimensão microssocial no centro do qual se colocam os seus atores e a rede de interações que se tecem entre si” ( MADEIRA - 1999), a intenção do grupo de espanhóis que vivem em São João que fundou o Colégio Amália Domingues Soller parece estar cumprindo o seu objetivo primeiro de perpetuação n de muitos traços da cultura e da língua que trouxeram de seu país de origem, ainda que estritamente dentro de uma comunidade específica - aquela formada pelos seus descendentes.

Nossa proposta é verificar a veracidade desta hipótese, observando o modo como o aprendizado da Língua Espanhola - que é uma aquisição que se pretende proporcionar às crianças desde a Educação Infantil - funciona como ferramenta de apoio e estratégia na busca desse objetivo de socialização bi-cultural num ensino bilíngüe.

O Colégio e Suas Características

 
O Colégio Amália Domingues Soller é “uma instituição educacional fundada por um grupo de espanhóis que emigraram para São João, que contaram com a colaboração da Administração Educativa Hispana. Constitui-se em uma empresa binacional, de caráter particular, que tem como objetivo oferecer à sociedade uma educação de qualidade, criativa e inovadora e difundir a Língua e a Cultura Espanholas”. (Boletim do Colégio Amália Domingues Soller)

A partir já da Educação Maternal inicia-se o conhecimento da Língua e da Cultura Espanholas, exclusivamente em comunicação oral, através de aulas diárias ministradas por professores especializados. Seguindo a linha de impulsionar o ensino do Espanhol na Educação Infantil, o Colégio mantém uma classe de Maternal (três e quatro anos de idade) e outra de Jardim (quatro e cinco anos de idade) em Língua Espanhola. Esses dois grupos seguem utilizando apenas o Espanhol como língua de ensino e, posteriormente, no Pré (cinco e seis anos de idade), os alunos utilizarão a Língua Portuguesa para a alfabetização.

Como formação enquanto educador, o Colégio exige de seus professores conclusão no curso de magistério e graduação em nível superior.

Algumas Idéias Iniciais

Nosso país possui toda uma história de colonização por imigrantes que vieram primeiramente de nossa “metrópole mãe”, Portugal, e posteriormente outros indivíduos vindos de diversas regiões do planeta. Podemos encontrar na região Sul do Brasil, muitas comunidades formadas por imigrantes e seus descendentes, onde a cultura e a língua de origem estão muito presentes e compõem o ambiente local. São comunidades de origem italiana, alemã, finlandesa, holandesa, lituana, e tantas outras que se pode encontrar também nas demais regiões do nosso imenso país. Esses imigrantes trouxeram muitas contribuições não só para nossa cultura nacional brasileira, como também para caracterização da Língua Portuguesa, tal qual é falada pela variedade de nosso povo brasileiro.

Para CONFORTIN & FERNANDEZ “o bilingüismo, fenômeno existente em muitas comunidades do país, deve merecer atenção sempre maior a fim de que não se extingam culturas que serviram de base para a história lingüística do Brasil”. (1993)

Se para essas comunidades se faz importante a atenção em relação ao fenômeno do bilingüismo, para outras cidades e regiões onde esse fenômeno não se encontra presente, não menos importante se faz a atenção que se pode e deve voltar para as experiências de fomento e manutenção da língua e cultura, entre seus descendentes, de indivíduos advindos de países que serviram de fonte para a imigração que desencadeou a formação de nossa sociedade.

É importante destacarmos que é muito particular a experiência de um ensino bilíngüe no Brasil, nos moldes do desenvolvido pelo Colégio observado com os idiomas Português e Espanhol, uma vez que o mesmo não está inserido dentro de uma comunidade especificamente bilíngüe. Desconhecemos no Brasil a existência de alguma comunidade bilíngüe que fale Espanhol; a não ser o caso dos moradores de cidades fronteiriças, nas regiões que se delimitam com seus visinhos hispânicos.

Na cidade de São João, o comum e corrente, é utilizar-se a Língua Portuguesa; e fora do contexto doméstico de algumas famílias de origem hispânica e de alguns pouquíssimos ambientes mais específicos - como Consulados de países de Língua Espanhola e alguns Institutos hispanos -, não é nada comum observar-se as pessoas se comunicando em Espanhol. Por isso, é uma exceção muito particular o tipo de ambiente que se encontra no Colégio, que se compõe das características que descrevemos neste trabalho enquanto “mundo bilíngüe”.

Quanto ao ensino num ambiente que pretende ser bilíngüe, segundo Ignasi Vila “essa prática não se reduz ao contexto da aula, senão que inclui muitos mais aspectos dentre os quais cabe destacar a língua familiar dos escolares, a presença social das línguas que se utiliza na educação bilíngüe, a organização e distribuição das línguas ao largo do currículo, o conhecimento lingüístico do professorado e as motivações sociais ao aprendizado das línguas, as quais são independentes do tratamento social que se dá aos direitos lingüísticos das pessoas.” (VILA - 1995) Cabe, então, tomar-se uma postura criteriosa na construção do meio em que se dá o que se pretende seja uma educação de fato bilíngüe e bi-cultural, procurando-se identificar as especificidades que podem garantir essa prática.

Nossas observações deram-se a partir de cerca de um mês e meio do início das aulas. Encontramos todas as crianças - cerca de cento e quarenta - plenamente adaptadas ao esquema da escola; inclusive cinco crianças originárias de países de Língua Espanhola que estão cursando Educação Infantil em Português.

O horário de permanência das crianças no Colégio se dá em dois períodos: matutino e vespertino, a saber.

O Colégio conta com modernos equipamentos, sendo os móveis muito bem adaptados às idades e tamanhos das crianças. Há muitos brinquedos, livros bem dirigidos às faixas etárias, uma biblioteca muito rica e completa, com muitas obras em Língua Portuguesa e em Língua Espanhola para todas as faixas de idade, computadores e uma grande variedade de materiais didáticos, musicais e audiovisuais também em ambos os idiomas.

O que se deve entender por Educação Bilíngüe


Ao pensarmos em observar o processo de socialização numa escola bilíngüe, é importante definirmos o que vem a ser isso: “Educação Bilíngüe”.

O termo “bilíngüe”, inicialmente, nos remete à compreensão de algo que ocorra, em termos de comunicação, em duas Línguas. Entretanto, quando falamos em aprendizado bilíngüe, devemos elucidar bem a diferença que há entre aprender uma língua estrangeira e apreender uma segunda língua.

Num Seminário para Construção de um Modelo Bilíngüe, em meados de 2001, o Professor Ignasi Vila - da Universidade de Gerona, Espanha - nos ensinou:

“O trabalho com as Línguas Portuguesa e Espanhola, deve dar-se dentro das seguintes perspectivas:

Português
Língua Veicular: é a língua utilizada como veículo de aprendizagem de diversos saberes, além de ser a língua das relações sociais no Colégio - interna e externamente. Essa língua é utilizada para aprender coisas. Ao aprender-se outros saberes por meio dela, se a aprende também.

Língua “objeto de Aprendizagem”: é estudada também como disciplina - Língua Portuguesa e Literatura.

Espanhol
Em uma Educação Bilíngüe, esta língua deve ser tratada exatamente igual ao Português.

Obs.: Não é um objetivo de uma educação bilíngüe, que os alunos mudem a língua de suas relações sociais. O objetivo é que os alunos aprendam uma nova língua que possam utilizar no mundo externo”.

Aprender uma Língua estrangeira é apropriar-se das possibilidades de se comunicar e/ou compreender um novo idioma, por meio de estudos cujo objeto é a própria Língua. Ao fazer-se, por exemplo, um curso de Inglês, ou um curso de Espanhol, está-se aprendendo uma língua estrangeira por meio de um curso que tem por objeto de estudo a Língua Inglesa ou a Língua Espanhola. Nestes casos as Línguas são os objetos de estudo.

Por outro lado, uma educação bilíngüe tem por objetivo oferecer ao educando a possibilidade de adquirir uma segunda Língua que, diferentemente da Língua estrangeira - que nunca será sua -, passará a ser um outro seu idioma, juntamente com sua Língua materna; de modo que o sujeito da aprendizagem seja capaz de refletir nessa nova Língua, de mudar de uma Língua para a outra - da Língua materna para a segunda Língua -, como diz Vila, “automaticamente”.

Uma diferença fundamental entre o aprendizado de uma Língua estrangeira e de uma segunda Língua, está no fato de que enquanto no primeiro caso a Língua é o objeto a ser aprendido, no segundo, a Língua deve ser o veículo de aprendizagem de outros saberes. Através da Língua veicular, o sujeito aprende novos conhecimentos e, à medida que vai aprendendo novas coisas, novos conceitos, novos saberes; vai apreen

dendo a segunda Língua de que se utiliza para isso.

“O termo ‘educação bilíngüe’ exclui aquelas situações em que se da o ensino ‘da’ segunda Língua como ‘matéria’ e não ensino ‘na’ segunda Língua”. (ARNAU, SERRA, COMET & VILA - 1992)

É interessante que, no decorrer deste artigo, o leitor possa perceber que no Colégio Amália Domingues Soller há momentos da aprendizagem em que o Espanhol é tratado como segunda Língua, ou seja, Língua veicular no aprendizado de outros saberes; mas que em outros momentos - como no caso das classes de Infantil em Língua Portuguesa - o Espanhol é oferecido às crianças como Língua estrangeira, tratado como objeto de estudo em aulas diárias de uma hora. Entretanto, é importante lembrar que mesmo a Língua Portuguesa, que efetivamente é a Língua veicular de nosso país, é oferecida nas nossas escolas como disciplina; portanto, objeto de estudo quando a disciplina que se oferece é “Língua Portuguesa”.

Outro aspecto interessante quanto ao processo de ensino bilíngüe no Colégio, é o fato de que as crianças são introduzidas nesse processo muito cedo, a partir da Educação Infantil. O professor Ignasi Vila, durante o Seminário sobre bilingüismo, chamou-nos a atenção ao fato de que essa prática é muito positiva, uma vez que na faixa etária das crianças pré-escolares ainda não há resistências e posturas negativas quanto ao aprendizado de uma segunda Língua, o que propicia que mais tarde essas crianças já tenham adquirido, pelo contrário, uma postura positiva quanto à Língua Espanhola, facilitando muito a condução do processo de educação bilíngüe nas etapas mais avançadas da escolarização.

O tipo de projeto que se leva adiante atualmente no Colégio se aproxima muito do modelo de programa de ensino bilíngüe intitulado “Programas de Imersão”. Trata-se de “programas de ensino na segunda Língua, dirigidos a alunos de língua e cultura ‘majoritária’. O desenho instrucional, que inclui diferentes modelos, tem as seguintes características:

- ensino na segunda língua de todas ou maioria das matérias do currículo durante um período de um ou mais anos. Este ensino pode iniciar-se na Educação Infantil ou em diferentes momentos da escolarização primária ou secundária,

- a seqüência e intensidade da instrução na primeira Língua e na segunda Língua muda ao largo do tempo segundo o modelo de que se trate,

- as aulas incluem somente alunos falantes nativos da primeira Língua.

Os objetivos são o bilingüismo e o biculturalismo. Os escolares mantêm a primeira Língua pelo tratamento que ela tem na escola e pelo suporte e status que ela tem fora do contexto escolar e aprendem a segunda Língua mediante um processo natural, não forçado, através do uso da mesma no trabalho das matérias do currículo”. (IDEM)

A diferença mais básica entre o modelo do Colégio e o modelo acima descrito, está no fato de que no Colégio, esse processo de imersão não se dá completamente; já que não ocorre o ensino de todas as disciplinas - ou a maioria delas - em segunda Língua no processo de escolarização, a não ser em classes de Maternal e Jardim, que são optativas; de modo que há alunos que cursam esta etapa em primeira Língua.

Como as crianças ouvem-compreendem-respondem ao professor e aos colegas, nas atividades em Língua Portuguesa e em Língua Espanhola

Como pudemos observar, é num mundo bilíngüe muito particular que fica imersa a criança que estuda no Colégio, vivenciando intensamente um processo de adaptação a um sistema de comunicação realizado todo a partir de duas realidades lingüísticas diferentes, entremeadas e interagindo concomitantemente, com grande valorização para a Língua Espanhola, ainda que a ênfase lingüística sobrecaia sobre a Língua Portuguesa, que é a Língua em que se alfabetiza as crianças e se lhes ensina a maioria das disciplinas da escola.

As relações diárias dos alunos entre si se dão basicamente em Língua Portuguesa - exceção feita aos poucos alunos que são advindos de países hispânicos.

Os alunos do Maternal falam Português. Seja na relação com os colegas, seja com funcionários ou ainda com os professores especialistas de Língua Espanhola, respondem e fazem solicitações em Português. Ao ouvirem falarem-lhes em Espanhol, demonstram compreender muito bem aquilo que lhes dizem. Só utilizam o Espanhol ao cantarem as músicas que se lhes ensinam no decorrer de seus cursos, ao declamarem alguma quadrinha ou ao responderem “adivinanzas”.

Há uma classe de Maternal no período da manhã - assim como o há também de Jardim -, cujas aulas são ministradas todas em Língua Espanhola. Nesta classe as crianças utilizam-se, como Língua de comunicação, do Português. As professoras falam todo o tempo com as crianças em Espanhol e elas respondem em Português. Eventualmente, alguma palavra ou frase mais simples sai em Espanhol, mas isso é raro. Já na classe de Jardim em Espanhol, as crianças começam a falar entre si e com as professoras e visitantes, em Língua Espanhola. Usam ainda o Português como base, mas já se arriscam muito mais numa comunicação em Espanhol.

No Jardim - em que as aulas são ministradas em Português - começam a haver mudanças no que diz respeito à Língua de comunicação. As crianças muitas vezes já se esforçam por responder ao interlocutor no idioma em que tenham sido interpeladas. Mas isso não chega a ser exatamente uma regra. Muitas crianças respondem em Espanhol quando perguntadas em Espanhol, mas tantas outras crianças continuam a responder em Português. Apenas nas aulas específicas de Língua Espanhola, e com os professores especialistas de Espanhol - seja na sala de aula, seja nos corredores ou outras dependências do Colégio - é que as crianças esforçam-se realmente para falarem apenas em Espanhol. Pode-se notar, comparativamente às crianças do Maternal, que o processo de socialização vem caminhando lenta e perenemente.

Seria falso afirmar que as crianças procurem falar Espanhol apenas nas dependências do Colégio com o professor especialista. Isso seria, de certa forma, restringir o alcance do relacionamento entre eles. Pudemos observar o encontro casual entre uma professora especialista de Espanhol e um seu aluno no Shopping Center da cidade e, “é claro”, a rápida troca de palavras entre eles deu-se em Língua Espanhola; mesmo tratando-se de professora que fala Português perfeitamente, sem nenhum sotaque. Interessante essa observação de comunicação em idioma especificamente ensinado na escola, fora do ambiente escolar.

Entre si, os alunos do Jardim falam em Português, a não ser em raras ocasiões em que desejam, por exemplo, corrigir o que julgam estar errado na pronúncia do colega ou mesmo do professor.

As músicas e os vocabulários usados com os alunos desta classe já se verificam notadamente mais ricos e complexos. Mesmo assim, percebe-se total compreensão por parte dos alunos, quando se lhes faz alguma pergunta, comentário ou se lhes responde algo em Língua Espanhola.

Um momento muito interessante para a aprendizagem das crianças por meio das brincadeiras, pudemos observar na classe de Jardim em Língua Espanhola; durante uma atividade em que a professora estava trabalhando, com seus alunos, os números.

Perguntou-se às crianças: “¿Dónde encuentramos los numeros?” e elas enumeraram quatorze lugares onde puderam observar números, num passeio pela escola: 1 - coches, 2 - calendários, 3 - clase, 4 - precios, 5 - dinero, 6 - reloj, 7 - pizarra, 8 - puertas, 9 - placas indicativas, 10 - zapatillas, 11 - camisetas - 12 - canchas, 13 - teléfono e 14 - edad.

As crianças do Jardim já se esforçam muito mais para falarem em Espanhol. Seja nas aulas de Língua Espanhola, seja nas ocasiões em que os coleguinhas ou funcionários de Língua hispânica lhes falam em Espanhol, procuram responder em Espanhol. Os diálogos em Língua Espanhola mostram-se sempre curtos, denotando ainda a dificuldade de se manter uma conversa mais longa naquele idioma, mas já se vê o Espanhol como uma Língua viva e presente no raciocínio das crianças.

A música é uma forma de expressão especialmente importante para as crianças, do Maternal ao Pré. Além de se sentirem muito à vontade nas aulas de música com a professora especialista dessa área, as crianças também demonstram adorarem cantar em tantos momentos quantos lhes for proposto. Ao saírem da sala de aula para se dirigirem para a classe de Espanhol, “puxadas” pela professora especialista, as crianças seguem cantando alegremente em Língua Espanhola. Em várias disciplinas a música é ferramenta importante de trabalho. Pudemos observar, por exemplo, uma aula de Língua Espanhola em que a professora estava trabalhando “Animales” com as crianças. Para cada animal, as crianças cantavam uma canção significativa. Apesar de não falarem ainda quase nada em Espanhol, já cantavam canções inteiras - bem simples, é verdade - nessa nova Língua.

Pudemos observar, também, uma atividade bem interessante com característica especificamente bilíngüe na aula de música - com a professora especialista dessa área -, em que as crianças estavam cantando canções que falavam de animais. Numa canção sobre o sapo, cantavam em Português até certo ponto da letra, em que surgia uma estrofe em Espanhol. Esta “mistura de Línguas” passa-se naturalmente para as crianças que cantam direitinho cada trecho sem fazer a menor confusão.

Essa utilização da Língua Espanhola no processo de aprendizagem, tal como observamos no Colégio; dá a essa língua um caráter de instrumento de apreensão de outros conteúdos que não apenas e simplesmente a própria língua. Dessa maneira, o ensino de Espanhol não é tratado como o ensino de mais uma disciplina, mas sua apreensão é disponibilizada às crianças na aprendizagem de outras atividades e conteúdos; o que permite aos escolares refletirem e formularem seus raciocínios nesse idioma no exercício de aquisição desses outros conteúdos, ao passo que apreendem também a própria “segunda língua”.

O Papel da família no aprendizado bilíngüe

HORTON & HUNT destacam que “o percurso de aprendizagem cultural é iniciado no seio familiar, uma vez que a personalidade e a cultura estão intimamente relacionadas através da forma como a herança biológica irá ser moldada pelo meio ambiente.” (1980)

Em busca de algum referencial familiar para a aprendizagem bilíngüe e bi-cultural das crianças observadas, resolvemos procurar alguma referência familiar para nossas observações.

Tivemos a oportunidade de nos entrevistar com algumas mães de crianças das classes de Educação Infantil e de primeiro ano do Ensino Fundamental, que estudaram no Colégio durante a fase de Educação Infantil. Ouvimos os relatos a respeito de como seus filhos passaram a utilizar em casa algumas frases em Língua Espanhola, que antes não usavam nem conheciam.

Algumas mães nos contaram que nos dias em que a aula de Espanhol é a última dentre as atividades das crianças, seus filhos vão para casa tentando conversar no carro nessa língua.

“ - Quando meu filho tem a última aula de Espanhol, ao entrar no carro para irmos embora, me diz assim: “Hola mamá”! e descamba a falar em Espanhol” - me contou uma das mães e outras que estavam por perto nesse momento me confirmaram que com elas ocorre a mesma coisa.

Algumas mães nos contaram que em casa seus filhos que estudam no Colégio, ensinam os irmãos mais novos a falarem Espanhol. Uma me contou e outras três que estavam juntas conversando, me confirmaram que em suas casas ocorria a mesma coisa.

Um pai de aluno, de origem uruguaia, me contou que em casa conversa com a família apenas em Português, mas depois que seu filho passou a estudar no Cervantes, começou a conversar com ele em Espanhol. O irmão mais novo, escutando as conversas em Língua Espanhola, começava a se interessar por aquele jeito novo de falar do irmão com o pai.

Algumas mães, entretanto, de famílias onde não se constata origem hispânica, nos disseram que pretendem começar a estudar Espanhol, pois não conseguem auxiliar os filhos na aprendizagem dessa nova língua. Duas mães nos relataram que já começaram o estudo de Língua Espanhola. Para as crianças dessas famílias, parece que a socialização se dá de maneira mais lenta, pois não encontram em casa a mesma herança cultural daqueles seus colegas descendentes de hispânicos. Mas alguns professores especialistas afirmam que essas crianças conseguem atingir os objetivos de aprendizagem da Língua Espanhola, e que algumas delas atingem níveis muito satisfatórios de conhecimento da língua.

Ainda com o pensamento no papel da participação da família na socialização escolar das crianças nesse mundo particular, pegamo-nos refletindo com Conceição Alves Pinto, que levanta a seguinte questão: “Até que ponto muitas das crianças nas nossas escolas dispõem de pontes entre seu mundo significativo (com que chegam à escola) e o universo significativo que lhes é imposto na socialização escolar?” (PINTO - 1995)

Resolvemos, então, mesmo que de uma forma pouco profunda, verificar momentos da participação da família no ambiente escolar, observando possíveis oportunidades que pudessem se mostrar como aquilo que a autora citada chama de “pontes” de passagem de um mundo significativo para o outro.

Participamos, então, de algumas atividades realizadas no Colégio, que não aquelas da educação formal; em que as famílias estão muito presentes. Estivemos em duas festas bem interessantes.

A primeira dessas festas, realizada pela Associação de Pais e Mestres, tinha como objetivo homenagear os novos alunos do Colégio. Uma festa muito rica em aspectos da cultura espanhola. Havia barracas vendendo “paella, tortillas, embutidos españoles, sardinas em la plancha”; juntamente com barracas vendendo o tradicional churrasquinho, pastéis e outras iguarias típicas das festas brasileiras. Houve apresentação de dança flamenca por grupos de alunos do Colégio e se escutava muitas pessoas - familiares de alunos e funcionários do Colégio - conversando em Castelhano.

A segunda festa, realizada pela direção de ensino do Colégio, foi a “Feria Del Libro”. Uma festa cultural muito interessante que contou com a presença de escritores conhecidos da literatura brasileira e também da literatura espanhola. Havia “stands” de venda de livros das principais editoras brasileiras, juntamente com outros de editoras especializadas em livros em Espanhol. Também nessa festa as comidas de origem espanhola bem como brasileira estavam presentes, além dos livros em Espanhol; num grande acervo de capital cultural a ser adquirido pelas famílias que se via comprando muitas obras literárias para seus filhos.

Pudemos perceber, a partir da observação desses eventos, que a socialização secundária - que ocorre na escola - encontra momentos de intersecção com as famílias, o principal instrumento da socialização primária das crianças.

Algumas anotações referentes ao ambiente bilíngüe

Conversando com alguns professores especialistas de Espanhol de classes mais adiantadas - mais especificamente das quintas e sétimas séries do ensino fundamental -, verificamos uma interpretação interessante do ambiente bilíngüe no Amália Domingues Soller.

“- Quando vim trabalhar neste Colégio, pensava que encontraria um ambiente amplamente bilíngüe, perfeitamente bilíngüe. Entrementes, a Língua Castelhana recebe tratamento diferente da Língua Portuguesa. A carga horária em que os alunos recebem aulas em Espanhol é muito menor que em Língua Portuguesa. Por isso, as crianças acabam por compreender praticamente tudo em Castelhano, mas demonstram dificuldade - mesmo em etapas mais avançadas da escolarização - para se comunicarem oralmente e por meio da escrita em Língua Espanhola” nos relatou um dos professores, originário de país hispano.

Conversando sobre essa peculiaridade do Colégio com o Professor Ignasi Vila durante o Seminário que ministrou no início do ano de 2001, escutamos dele a explicação de que um indivíduo que seja capaz de compreender perfeitamente um outro idioma que vem adquirindo num processo como o que descrevemos, pode ser considerado bilíngüe, uma vês que, em suas palavras, “não existem sujeitos cem por cento bilíngües”.

O ambiente peculiar do Colégio completa-se, ainda, com a execução diária dos hinos nacionais de Brasil e Espanha, além da comemoração dos feriados e festas de ambos os países - tais como as festas juninas brasileiras, e a festa da natividad hispana. Essa mistura cultural complementa o ambiente bilíngüe dando-lhe subsídios férteis para disseminação do ensino das duas línguas.

Esse ambiente bi-cultural é muito importante tanto para a construção da identidade hispano-brasileira dos alunos, quanto para a apreensão por parte dos educandos da língua Castelhana, pois, segundo CONFORTIN & FERNANDEZ “a cultura e a civilização são inseparáveis da língua”. (1993)

Finalizando

A educação escolar é, sem dúvida, um instrumento institucional importantíssimo de socialização. Quando o educador ensina, transmite uma carga de valores morais e políticos; enfim, todo um universo de valores e padrões de uma sociedade, oferecendo ao educando o modelo em que se espera que ele se adapte e torne seu. Educação e socialização possuem muitas afinidades entre si, sendo que a matéria prima de uma e de outra fazem com que os organismos sociais se perpetuem; e essa matéria prima é a cultura.

Ao fundar o Colégio Amália Domingues Soller, o grupo de espanhóis que vive em São João, tinha o objetivo de difundir a Língua e a Cultura Espanholas como forma de legar, principalmente a seus descendentes, o acesso àquela cultura em que haviam sido, eles mesmos, socializados em seu país de origem.

O modelo bilíngüe e bi-cultural de educação que o Colégio oferece aos seus alunos, segundo pudemos perceber, proporciona a eles a capacidade de refletirem e abstraírem em ambos os idiomas, mergulhados em muitos aspectos da cultura espanhola, o que denota a apreensão da Língua Castelhana como uma Língua a mais “do” aluno. Mas pelo que observamos ao conversarmos com os professores das classes mais adiantadas do ensino no Colégio, vimos que eles compreendem essa apreensão com um caráter também muito particular. Parece, pelo argumento desses professores, que o fenômeno bilíngüe de fato, ocorre ao nível da compreensão e poder de reflexão, mas não ao nível da oralidade e da escrita, pois os alunos compreendem e refletem em Língua Espanhola, mas não falam nem escrevem com a mesma desenvoltura que em Português, quando o fazem em Castelhano.

O ambiente que o aluno encontra no Colégio caracteriza-se por uma comunidade educativa que consolida o seu modelo educativo, e “não podemos compreender a socialização escolar sem levar em conta os múltiplos processos interativos de socialização da própria comunidade educativa e suas conseqüências ao nível da socialização da criança” (MADEIRA - 1999)

Assim, o papel da herança cultural com que as crianças chegam ao Colégio, é crucial para um maior ou menor êxito escolar; de modo que os próprios pais percebendo isso, muitas vezes, quando não possuem a bagagem cultural compassada com os ideais bi-culturais da escola, começam buscar formas de aquisição dessa bagagem como garantia de poderem proporciona-la aos seus filhos - como no caso de pais que não são de origem hispânica e começam a estudar a Língua Espanhola para poderem interagir com seus filhos nesse idioma.

Nos ensina DURKHEIN (1978) que quanto mais rico em valores for o indivíduo, mais humanizado e mais civilizado será. Ele nos diz que ao introduzir-se os valores da sociedade na educação do indivíduo, proporciona-se-lhe condições de raciocinar sob esses valores, levando-o a se socializar. Essa ordem exterior introduzida no processo educativo do indivíduo interage com sua razão e o torna autônomo à medida que vai ocorrendo sua socialização.

Vemos no Amália Domingues Soller a introdução no processo de educação de inúmeros valores, tanto da sociedade brasileira como da espanhola, servindo como instrumentos de humanização no processo de socialização que ocorre naquela instituição educativa. Se os aspectos da cultura brasileira se destacam devido ao fato de o Colégio estar inserido dentro de um ambiente nitidamente brasileiro; os aspectos da cultura espanhola, por sua vez, aparecem com muita força, pois dentro daquela escola observa-se um ambiente diferente do externo - ainda que fortemente influenciado por ele. Um ambiente que vai-se construindo todo de maneira bi-cultural, objetivando transmitir uma bagagem cultural particular à sua clientela.

A experiência bilíngüe em termos de educação é muito pequena no Brasil.

Observamos que o Colégio vem encontrando um caminho muito bem adaptado aos objetivos de seus fundadores e às necessidades dos escolares no que diz respeito à inserção deles num mundo com essa natureza bilíngüe e bi-cultural; uma natureza criada de maneira artificial, porém cheia de significados que vão marcando e incorporando-se ao mundo das crianças - guardadas as observações das particularidades no que diz respeito ao fenômeno bilíngüe observado mais fortemente no “compreender” que no “comunicar-se”. Elas conseguem construir uma espécie de identidade bilíngüe muito particular e parecem estar encontrando êxito com relação a boa parte do objetivo de socialização do Colégio.

A pressão social que as crianças sofrem, ao esperar-se delas essa socialização específica num ambiente particular, parece humanizar-se através do contorno pedagógico que o Colégio vem oferecendo a seus alunos, numa cumplicidade muito positiva com suas famílias.

Finalmente, não podemos deixar de comentar que esta reflexão a respeito da socialização de crianças em fase de Educação Pré-Escolar em um meio bilíngüe e bi-cultural é ainda muito provisória e incipiente. Neste campo existem ainda muitos caminhos por percorrer, sendo este um estudo aberto a muitas pesquisas e muita energia investigativa.

Bibliografia

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BOLETEM DO COLÉGIO 2001 - editado pelo próprio Colégio Amália Domingues Soller.



   
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